Não sei dizer quem tem razão: o Fórum Social Mundial ou o Fórum Econômico Mundial. Os defensores de Davos dizem que não se pode lutar contra fenômenos naturais. Lutar contra a globalização é como lutar contra as marés ou contra o avanço do deserto. Não sei. Talvez haja alguma verdade nessa crítica. Mas talvez haja verdade, também, em lembrar que, em Davos, os líderes mundiais pretendem “desenhar” o futuro. De uma coisa eu sei: não é de hoje que o homem deixou de ver o clima como fenômeno inelutável. Os serviços de meteorologia são exemplos dessa luta. Nossos serviços de meteorologia e ecologia sociais nos ajudam a olhar criticamente para aqueles fenômenos que nos pareciam tão naturais, por causa de sua longa história. Se Davos pretende planejar o “clima” do mundo, Porto Alegre quer consertar o buraco na camada de ozônio.
Talvez estejamos exagerando nas comparações. Mas não estaremos mais longe da verdade do que aqueles que consideram a globalização como inexo-rável ou dos que arrastam para a esquerda a necessidade do fórum de Porto Alegre.
Tornou-se comum, “climática”, uma determinada forma de compreender e exercitar as relações sociais, seja nas esferas internacional, empresarial, das instituições financeiras ou até mesmo no âmbito familiar. A globalização incentiva o modo “neoliberal” de relacionamento, caracterizado por competição, utilitarismo, impessoalidade, privacidade e isolacionismo. Apresenta-se, ao olho nu, como um processo evolutivo, no qual sobrevive o mais forte, o mais adaptado. Os fracos vão sendo “naturalmente eliminados”. “É normal”, dizem alguns, “pois corresponde a um determinado estágio de desenvolvimento do capitalismo”. Os valores associados, pregados pela mídia (porta-voz do sistema), são: a competição como modo de vida; o consumismo como medida de prazer; o acúmulo de bens (mesmo os inúteis ou não-fruíveis) como caminho para a felicidade e âncora psicológica; a absolutização do ego em contraposição ao outro como fator de auto-estima, e o desprezo pelos fracos, pobres e necessitados (tecnicamente chamados de periferia) como fatos da vida.
É aqui que nossos “sensores meteorológicos” alertam para um processo de desertificação, em progresso. Desertificação relacional, que começa com a segregação das nações em mundos, transforma instituições internacionais em predadoras, resseca as relações inter e intra-empresariais, chega como tempestade de areia às igrejas e vai cobrir de pó as relações familiares. Aceitar esse fenômeno “natural” sem crítica; aceitar que somos apenas engrenagens de um grande e impessoal mecanismo significa aceitar sua ética - e engrenagens não têm ética.
As obras de contenção desse processo de deser-tificação das relações humanas; os programas de irrigação das relações entre patrão e empregado, marido e mulher, pai e filho só começarão quando assumirmos que não somos engrenagens aéticas; somos seres humanos que precisam uns dos outros. Quando nosso semelhante se transforma em “coisa”, em um objeto de relacionamento, seja como uma fonte de poder (o patrão, o pai), seja como ferramenta de trabalho (o empregado, o filho, a esposa), então estamos sucumbindo ao processo aético de deser-tificação global da vida. Mas se nosso “departamento de meteorologia social” nos avisa que não sobreviveremos se não aprendermos a ver nosso semelhante como parte e razão da nossa felicidade, então precisamos pensar em ética e em seus valores correspondentes: amor, respeito, afeto, com paixão, altruísmo, abnegação, sacrifício.
Nessa hora, uma voz nos lembrará da Aliança. Uma aliança que está na origem da nossa nova humanidade. Essa aliança nos diz que um dia, de engrenagens de um sistema árido, impessoal e inelutável, fomos alçados à condição de filhos amados.
Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero da Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília, DF. É autor de, entre outros, Excelentíssimos Senhores e Icabode - da mente de Cristo à consciência moderna.
Artigo originalmente publicado na Revista Ultimato número 269.
Aqui publicado com a devida autorização da Editora Ultimato.
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