Há anos, a imprensa mundial divulgou o comentário de um astronauta russo, ateu, que declarava não ter vinto Deus no espaço. Em seguida, Frank Borman, astronauta norte-amaricano, cristão, declarou que pôde ver a sua evidência. E Jack Lousma, também astronauta cristão, acrescentou: "Seeu não consigo acreditar que peças da minha nave se ajustaram por acaso, como poderia crer que o universo se formou sozinho? Estou convencido de que somente um Deus inteligente poderia ter criado um universo assim". Arthur L. Schawlow, ganhador do Prêmio Nobel de Física, em 1981, deu a seguinte declaração: "Penso que quando nos deparamos com as maravilhas da vida e do universo, devemos perguntar por que e não somente como. As respostas possíveis são religiosas. Sinto necessidade de Deus, tanto no universo quanto na minha vida". Tómas de Aquino, que viveu de 1225 a 1274, dizia que tanto a razão quanto a fé provêm de Deus e por isso não pode existir contradição entre elas.
Em Atos 17.15-34, deparamo-nos com Paulo debatendo com os estóicos e epicureus, numa demosntração de que a Igreja se preocupava em conhecer as correntes filosóficas. Depois de perceber a fragilidade dos argumentos daqueles filósofos, Paulo profere o discurso do Areópago, apresentando Jeová como o Deus que os atenienses adoravam sem conhecer.
Diante de testemunhos como esses. por que teria a igreja da Idade Média desaguado na Inquisição?
Inquisição
O rompimento entre a religião e a ciência ocorreu a partir do século 16, por motivos políticos. A Igreja, que detinha o poder político, assumira que os princípios aristotélicos eram verdades absolutas. Aristóteles, filósofo grego, acreditava que a Terra era plana, e o centro do universo, o sol e as estrelas se moviam em torno dela. Cientistas como galileu, Giordano Bruno e Nicolau Copérnico descobriram que a Terra é que girava em torno de si mesma e se movia em torno do sol. A Igreja não quis que esta verdade se difundisse, pois provocaria o descrédito da religião e a perda do poder político. Então, tudo que contrariava os princípios de Aristóteles foi declarado heresia e muitos sábios foram condenados ao silêncio, à prisão e à fogueira.
A questão é que por Aristóteles não dispor de instrumentos óticos, sua verdade era apenas o que seus olhos viam. A luneta, inventada posteriormente por Galileu, derrubou a visão aristotélica do universo.
Ainda hoje, o homem desenvolve instrumentos de medição, que provocam mudaças em concepções até agora consideradas verdadeiras. O telescópio Hubble, por exemplo, acoplado a uma plataforma espacial situada além da atmosfera terrestre, tem feito incríveis observações do universo, confirmando, alterando ou desmentindo algumas teorias vigentes.
A fé
Quando ao mar, o comandante de um navio perde de vista os acidentes geográficos de terra, ele confia que os satélites artificiais lhe enviarão informações sobre o seu posicionamento - e não falharão. Mas se falharem, as estrelas estarão acima deles. O comandante as conhece e possui instrumentos que através delas, lhe garantem navegar em segurança. Eis uma pequena demonstração da natureza da fé. O autor da carta aos Hebreus a define como sendo "o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não vêem". E acrescenta: "Pela fé, entendemos que os mundos, pela palavra de Deus, foram criados: de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente", Hb 11.1,3. A fé, portanto, exige forte dose de racionalidade. Por isso, Paulo recomenda aos cristãos que se aperfeiçoem na fé, prestando a deus um culto racional, não se conformando com o mundo, mas com o entendimento renovado (Rm 12.1-2).
A racionalidade não deve ser desprezada no exercício da fé, do mesmo modo que o comandante, mesmo experiente, não deve navegar sem o instrumental tecnológico adequado. A fé e a ciência são perfeitamente compatíveis.
A Bíblia para projetar-se na eternidade, não é um livro de ciências. Ela busca alcançar o que existe de eterno no homem, inculcando-lhe a visão da multiforme graça de Deus. A ciência é apenas um dos aspéctos dessa graça. Portanto, não devemos buscar na Bíblia a confirmação ou o desmentido às teorias científicas, que apenas atendem a um determinado estágio do conhecimento humano.
Disse Jesus: "Qualquer que beber desta água tornará a ter sede, mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna", Jo 4.13-14. Os cientistas bebem da água do conhecimento, voltam a ter sede e retornam a pesquisa. Mas a palavra de Deus faz brotar uma fonte definitiva, sendo apta para discernir os pensamentos e intenções do coração (Hb 4.12).
Paulo Ferreira é pastor-auxiliar na Assembléia de Deus em Jacarepaguá, Rio de Janeiro (RJ) e professor do Seminário Teológico Shalom e da Emad.
Artigo publicado originalmente na Revista Pentecostes número 14, ano 2, de Agosto de 2000.
Aqui publicado com a devida autorização da Editora CPAD.
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